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Renate G. Watanabe
Acontecem fatos estranhos quando se ensina Trigonometria:
As duas funções não são iguais; no entanto, em nossas aulas, chamamos ambas de seno.
Este artigo vai tentar esclarecer essas questões. Falaremos apenas do "seno", mas o que for dito se estende às demais funções trigonométricas.
A Trigonometria é uma parte bem antiga da Matemática. Já antes de Cristo, o interesse pela astronomia, agrimensura e navegação provocou o aparecimento das razões trigonométricas e sua tabulação. A primeira "tabela trigonométrica" de que se tem conhecimento foi compilada por Hiparco, no século II a. C. Desde a sua origem e, certamente, até a Renascença, a Trigonometria foi usada para resolver problemas de natureza geométrica. E nesse contexto que, na 8.ª série, definimos, pela primeira vez, a função Seno (aqui denotada com um S maiúsculo):
Como a medida de ângulos, em Geometria, varia de 0 a 180 graus, o Seno acima definido pode ser visto como uma função cujo domínio é o conjunto dos números reais entre 0 e 180 (acrescentando na definição que Sen 0 = 0). E, enquanto usamos a Trigonometria
para resolver problemas de Geometria,
essa função Seno - e suas companheiras
Cosseno e Tangente -atendem a todas as necessidades.
A transição das razões trigonométricas para funções periódicas de domínio IR, de aplicações mais amplas, começou com Viète, no século XVI, e culminou nos trabalhos de Euler, no século XVIII. Nós fazemos essa transição no 2.° grau, quando apresentamos, as "funções circulares". Com pequenas variações na linguagem, procedemos da seguinte maneira para "ampliar" a função Seno.
Essa função
Seno (denotada por f (x)
no inicio do artigo), de domínio IR, periódica, atendeu às necessidades da Física,
mas apresenta um grande inconveniente
na parte referente a cálculos O estudo de fenômenos
físicos quase sempre requer o uso de equações diferenciais,
isto é,
Eis por que:
Lembrando a definição de derivada, temos:
Teria sido muita sorte mesmo se a função Seno tivesse uma derivada "agradável". Afinal, sua definição depende da de grau, e essa unidade foi criada (~ 400 a.C.) pelos babilônios, que, por razões até hoje não totalmente esclarecidas, usavam o sistema sexagésimal. A inconveniência de se carregar essa
constante No 2.° grau essa nova função pode ser assim definida:
Essa função seno (denotada por g (x) no inicio do artigo) tem todas as propriedades da anterior e a seguinte vantagem, que pode ser vista tanto na figura acima como na tabela a seguir:
E é esse o motivo por que, fora da Geometria, apenas essa função seno é usada. Aqui cabem algumas observações: l. Na definição
dada, para 0 < x < 2 2. Pode-se definir a função seno (e as demais funções trigonométricas) sem fazer alusão a arcos, ângulos ou percursos (ver, por exemplo, Análise real, de Elon Lages Lima, IMPA, vol. l, p. 162). 3. Já que a função Seno, de domínio IR, não tem utilidade, pode-se definir Seno de um ângulo e, daí, passar diretamente para a função seno (ver, por exemplo. Cálculo, de Serge Lang, vol. l, p. 81).
Para definir seno de um número x, no 2.° grau, efetua-se, na verdade, a composição de duas funções:
O problema está na associação (l), que costuma ser feita de dois modos:
No primeiro
caso fica definida
a função Seno e, no segundo caso, a função seno.
Alguns livros didáticos, lançados em outros países, reconhecem a existência das duas funções seno e usam símbolos diferentes para representá-las. No Brasil há uma espécie de "acordo
de cavalheiros". Quando a palavra seno aparece na frente de números
como 30, 45, 180, etc., assumimos
tratar-se da função Seno Se essa mesma palavra aparece na
frente de números como Quando pedimos aos nossos alunos que
resolvam a equação sen x = 0, aceitamos como corretas
as soluções x = k Uma possível saída
é usar sempre o símbolo "grau" quando se trata da função Seno, isto é, escrever sen 30°, sen 45°, sen
500°, sen 1°, (embora Seno seja uma função de domínio
IR), e reservar o símbolo "sen" para a função seno. sen n,
sen 3
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