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Por mais antigo, tradicional e repisado que seja o assunto que estamos ensinando, convém sempre procurar novos ângulos para focalizá-lo, outras maneiras de abordá-lo, não somente buscando tornar mais atraentes nossas aulas mas até mesmo para nos dar um pouco mais de entusiasmo, quebrando a monotonia de repetir todos os anos a mesma história. Nesta nota, tratamos de um tópico bem conhecido, embora imprescindível. Tentamos sugerir aos nossos leitores, ao lado da apresentação usual, novos modos de vê-lo. Mesmo que alguns não achem vantagem em nossos pontos de vista, pelo menos ampliarão seus conhecimentos, dentro do princípio de que se deve sempre saber um pouco mais do que se ensina.
O problema de achar dois números conhecendo sua soma s e seu produto p é um dos mais antigos da Matemática. Ele já se encontra em textos cuneiformes, escritos pelos babilônios, mil e setecentos anos antes de Cristo. Pode-se reformular esse problema, em termos geométricos, assim: determinar os lados de um retângulo, do qual se conhecem o semiperímetro 5 e a área p.
Os números procurados, digamos
Com
efeito, se
Outra maneira de chegar à mesma conclusão consiste em observar que, por um lado, temos
x2
e, por outro lado, vale
(x
Portanto
x2 - sx + p = (x
Achar as
raízes do trinômio x2
Por exemplo, a regra para achar dois números cuja soma e cujo produto são dados era assim ensinada pelos babilônios: "Eleve ao quadrado a metade da soma, subtraia o produto e extraia a raiz quadrada da diferença. Some ao resultado a metade da soma. Isso dará o maior dos números procurados. Subtraia-o da soma para obter o outro número". Esta receita era fornecida, sem nenhuma justificação, a não ser a de que dava certo. Com o decorrer do tempo, vários métodos foram introduzidos para justificar a regra acima. O mais conceituado é o de completar os quadrados, que veremos a seguir.
A primeira
é que, como a parcela (x
A segunda conseqüência da igualdade acima é a fórmula que dá as raízes da equação do segundo grau x2 - sx + p = 0. Com efeito, essa equação se escreve sob a forma
Mesmo um tema paleontológico como a equação do segundo grau admite variações. Podemos fugir da rotina e pensar noutras maneiras diferentes de chegar à fórmula das raízes. Uma delas é a seguinte.
Evidentemente,
Para achar
dois números
"Uma figura vale mil palavras."
Acreditando nesse provérbio, vejamos de que modo o problema de achar dois
números cuja soma é s e cujo produto é p ganha algum
esclarecimento quando se olha para o gráfico da função y = x2
Examinando alguns exemplos (isto é, atribuindo valores específicos a s e p), nos convencemos de que esse gráfico tem a forma de uma parábola, com a concavidade voltada para cima. Nessa parábola, o ponto mais baixo (x, y) é aquele para o qual y = x2 - sx + p assume o menor valor possível; logo esse ponto tem abcissa x = s/2 e ordenada y = (4p - s2)/4, como vimos no §2 acima.
As raízes da equação xL — sx + p = 0 são as abcissas dos pontos onde a parábola corta o eixo x.
•
Quando o ponto mais baixo da parábola
tem ordenada negativa, isto é, quando s2 - Ap > 0, • Quando s2 - Ap = 0, o ponto mais baixo da parábola está sobre o eixo x: ela tangencia esse eixo e a equação tem uma única raiz, chamada "raiz dupla" (Fig. lb). • Quando s2 - Ap < 0, a parábola situa-se inteiramente acima do eixo x, com o qual não tem pontos em comum. Nesse caso, a equação não possui raízes reais (fig. lc).
Essa
discussão sobre a existência e o número de raízes distintas do trinômio x2
— sx + p, feita a partir da observação do gráfico, tem a vantagem
didática de ser "visível". Deve
entretanto
a soma no
segundo membro só pode anular-se quando as duas parcelas têm sinais
contrários ou são ambas nulas. Como a primeira dessas parcelas nunca é
negativa (pois é um quadrado), a existência de raízes depende exclusivamente
do sinal da expressão s2
Outro fato
que fica bastante óbvio quando se olha para o gráfico é que o trinômio x2
Achar dois números cuja soma é s e cujo produto é p significa resolver o sistema de equações simultâneas
Olhemos para cada uma dessas equações separadamente. As soluções (x, y) da equação x+y=s são as coordenadas dos pontos do plano situados sobre uma reta que corta o eixo das abcissas no ponto (s, 0) e o eixo das ordenadas no ponto (0, s).
Por
outro lado, dado p
Achar dois
números que têm soma s
e produto p
e, portanto,
um problema que se traduz geometricamente em achar os pontos de
interseção da reta x + y = s com a hipérbole xy = p. As
coordenadas
|
A reta de
equação y = x, formada pelos pontos do plano que têm abcissa igual à
ordenada, chama-se a diagonal do plano. Na fig. 3, a diagonal é a
reta tracejada. Se dobrarmos o plano
Se um
ponto (
Sejam
Os pontos
da hipérbole xy = p mais próximos da origem (0, 0) são aqueles
onde a hipérbole intersecta a diagonal y = x. Quando p >
0, esses pontos são
A
interpretação gráfica das raízes da equação x2
•
Consideremos inicialmente o caso em que p < 0. Se isto ocorre, os
dois ramos da hipérbole estão no segundo e no quarto quadrantes (fig. 5) e
acompanham os semi-eixos desses quadrantes. Logo a reta x + y = s
corta ambos esses ramos. Portanto, quando p < 0, a equação x2
- sx + p = 0 tem duas raízes reais. Notemos que a
desigualdade s2
> 4p é válida
automaticamente quando p é negativo. Notemos também que se a reta
corta um dos ramos da hipérbole no ponto (
Á equação
x2
À primeira vista, as fórmulas acima são inteiramente inúteis porque fornecem o valor de uma raiz x da equação em função da própria raiz x procurada. Na realidade, entretanto, elas não são tão inúteis assim; até pelo contrário: elas fornecem métodos iterativos, para calcular, com a aproximação que se desejar, as raízes da equação dada.
Isso
quer dizer que se começarmos com um certo x0, candidato
a raiz da equação x2 Analogamente, o algoritmo xn + l = p/(s - xn) também define uma seqüência que, se convergir para algum limite x, esse limite será uma raiz da equação dada.
Isso
significa que os números xn, construídos sucessivamente
segundo uma das regras acima, são valores aproximados de uma raiz da equação
(caso a seqüência
convirja). Evidentemente, se a equação x2 - sx + p
= 0 não possuir raízes reais, os números xn não vão
convergir para limite algum. Para estudar esse ponto, nos valeremos da
segunda interpretação gráfica, isto é, do modelo geométrico no qual as
raízes são as coordenadas da interseção de uma reta com uma hipérbole.
Consideremos inicialmente o caso p > 0. Para fixar as idéias (do contrário teríamos que duplicar o número de figuras), suponhamos também s > 0. Então as raízes da equação x2 - sx + p = 0 são números positivos, de modo que basta olharmos para o primeiro quadrante.
e sobre a
reta x + y = s. Tem-se x1
= p/(s - x0), x2 = p/(s
A
outra raiz é obtida usando
um ziguezague descendente, que começa num ponto (x0
,
p/x0)
Obtemos assim interpretações gráficas dos
algoritmos iterativos xn+1 = p/(s
- xn) e xn+i = s
Entenda-se
bem, esses processos convergem desde que exista algum x0
tal que
Deve-se
também notar que y = s - (p/x) se, e somente se, x =
p/(s - y). Isso significa que os dois processos iterativos
que estamos considerando são inversos um do outro, isto é, se um deles
transforma xn em xn + i
o outro leva xn + l de
volta a xn.
Quando
p < 0, a equação x2
O leitor
pode experimentar e
perceber que
Esses processos não funcionam quando s = 0 (supondo ainda p < 0). De fato, nesse caso a espiral se degenera num retângulo que é percorrido repetidamente, sem se aproximar do ponto limite. Do ponto de vista aritmético, quando í = 0 os dois processos iterativos se reduzem a um único, a saber, xn + i = —p/xn. Segue-se que xn + 2 = xn para todo n; logo, em vez de valores aproximados, obtemos a sequência x0, x1t, x0, x1, ... com dois valores apenas. É preciso então procurar outra saída.
Uma delas
é a seguinte: quando s = 0 e p < 0, digamos p =
O ponto
inicial do ziguezague, tomado sobre a reta x + y = 0, tem
coordenadas (x0, x0),
com x0 > 0. O primeiro segmento do ziguezague acaba
no ponto (
Isso nos conduz às aproximações sucessivas x0 , x1, x2, ... etc, onde
Esse é o
processo clássico de aproximação para
Na fig. 9
começamos com um valor x0 maior do que a raiz de q.
É interessante observar que se começarmos com um valor inicial
x0
<
A família Bernoulli, entre 1623 e 1863, forneceu 6 gerações de matemáticos ilustres (mais de uma dúzia). Entre eles, Nicolau, um membro da terceira geração, fez a seguinte observação, em 1718.
Dada a
equação do segundo grau x2
an
+ 1 = san
Segundo
Nicolau Bernoulli, os quocientes an +
l/an
são valores aproximados de
uma das raízes da equação proposta. Noutras palavras (e em termos
mais precisos), se existir o
limite
Isso é
fácil de ver, pois da relação de recorrência an +
1
= san
Evidentemente, há casos em que o quociente an + l/an, para valores muito grandes de n, não se aproxima de número algum. Basta tomar uma equação que não possua raiz real. Mas, quando an + l/an convergir, seu limite será uma raiz. Qual delas?
A resposta
a essa indagação está contida nas figuras 7 e 8. Com efeito, se xn
+ 1 = an
+1/an
,
então a relação an+l =
san
Suponhamos
inicialmente p > 0. Escolhendo a0 e a1
de modo que o x2
— sx + p = 0 assuma um valor negativo quando x = a1/a0
, os números xn+1 = an+1/an
convergirão para a maior raiz
a da equação x2
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